Conhecimento
História da epilepsia
A epilepsia é uma doença conhecida há mais de três mil anos, atravessando culturas e civilizações.
Se, na Antiguidade Clássica, a epilepsia era descrita com relativa precisão, as crenças na sua origem sobrenatural prevaleceram até ao séc. XIX, durante o qual os avanços da Ciência – e, mais concretamente, da neurologia – abriram caminho para a forma como a doença é vista actualmente.
Embora existam referências à epilepsia na literatura ayurvédica indiana (entre 4500 e 1500 a.C.), a sua referência mais conhecida terá surgido por volta do ano 3000 a.C. na civilização egípcia, sendo a origem da doença atribuída a um espírito maligno.
O termo “epilepsia” surgiu durante a civilização grega, embora subsistisse a crença na sua origem divina. A doença ficou conhecida como “Doença Sagrada”, encarada como uma consequência dos caprichos dos deuses.
Foi o grego Hipócrates, no ano 400 a.C., o primeiro a levantar o véu de misticismo que cobria a epilepsia. Num livro intitulado “Sobre a Doença Sagrada”, refutava a ideia de a epilepsia ser uma maldição ou um poder profético. Considerava que a “doença sagrada”, tal como todas as outras, tinha uma causa natural.
Ainda assim, a relação entre epilepsia e o sobrenatural percorreu toda a Idade Média. Em finais do séc. XV, chegou mesmo a ser responsável pela morte de mais de 200 mil mulheres – a presença de crises era considerada uma característica das bruxas.
A era moderna da epilepsia só terá tido início em 1873, quando Hughlings Jackson, um neurologista londrino, colocou a hipótese de as crises epilépticas serem provocadas por descargas eléctricas no cérebro.
Em finais do século XIX, ao mesmo tempo que o brómio era implementado por toda a Europa como um dos primeiros tratamentos eficazes contra a epilepsia (1857), surgia em Londres o primeiro hospital “para paralíticos e epilépticos” – símbolo percursor de uma abordagem mais humana da doença.
Em 1929, Hans Berger descobre na Alemanha o electroencefalógrafo (EEG), um dispositivo que permite registar as correntes eléctricas que ocorrem no cérebro. Desde a sua descoberta, tornou-se um instrumento essencial para o estudo da epilepsia.
Durante a primeira parte do séc. XX, os principais medicamentos utilizados no tratamento da epilepsia foram o fenobarbital (1912) e a fenitoína (1938). A partir dos anos 50, são descobertos cada vez mais medicamentos: carbamazepina (1953), etosuximida (1958) e valproato de sódio (1963).
Nos últimos tempos, o tratamento da epilepsia melhorou muito. Para isso contribuiu o surgimento da segunda linha de medicamentos de efeitos comprovados: gabapentina (1993), lamotrigina (1994), topiramato (1996), tiagabina (1997), levetiracetam (1999), oxcarbazepina e zonisamida (2000) são apenas alguns exemplos.
Apesar de actualmente já ser possível controlar as crises de epilepsia em crianças e adultos numa taxa de 70 a 80% dos casos diagnosticados, há já alguns anos que a tónica tem vindo a ser posta na qualidade de vida das pessoas que sofrem da doença.
Se, no chamado “mundo desenvolvido”, é possível controlar as crises epilépticas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes, o mesmo não acontece nos países em vias de desenvolvimento. Dos 50 milhões de doentes epilépticos existentes no mundo, cerca de 35 milhões não têm acesso aos tratamentos adequados.
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